Os olhos focados a cada lance, gargantas gritando palavras de coragem, o calor humano ocupando o Mangueirão na tarde do dia 25 de abril… Nem a chuva conseguiu “apagar o fogo” de encorajamento da plateia que assistiu ao jogo das guerreiras do Pinheirense, de Icoaraci, diante da Ferroviária (SP), na estreia histórica do time paraense no Campeonato Brasileiro da Primeira Divisão de Futebol Feminino.
As tardes de Belém não estão acostumadas a presenciar tamanha energia feroz como aconteceu nesse dia. Embora o público tenha sido bem aquém do esperado pela importância da partida, as pessoas estavam completamente entregues na energia do jogo que nem queriam mover seus olhos para longe do campo para dar uma entrevista. Precisei ser paciente, esperar as melhores oportunidades para poder falar com os personagens dessa minha história.
Enquanto esperava por uma dessas oportunidades eu pude observar o cenário daquela tarde: imagine o Mangueirão lotado de pessoas em um dia de RexPa, imagine a energia das pessoas, os gritos, a emoção a cada lance, os olhos marejados de sentimentos diversos passando pela cabeça das pessoas. Agora, imagine tudo isso em um jogo de futebol feminino. A cada movimento dos pés das garotas, o público gritava em protesto ou em coragem ao time que torcia.
Na primeira oportunidade que eu consegui, falei com um senhor de quase seus 50 anos, vestido com uma camisa do time que gosta, entra no Mangueirão e suspira para si mesmo “Nossa! Então esse é o famoso Mangueirão!”. Quando conversei com esse senhor ele logo me revelou que era a primeira vez que entrava no estádio, que estava lá para assistir à partida porque sua filha atua pelo clube de Icoaraci. Seu nome é Luiz Carlos, o Seu Luiz.
Ele estava com toda a sua família (esposa, filhas, sobrinhas, netas). Essa sensação de união familiar que os espectadores do jogo passavam era de um sentimento tão puro quanto o da vontade de estarem ali. As pessoas realmente estavam sentadas naquelas cadeiras sabendo o que queriam e iam assistir: um jogo brilhante de atletas paraenses.
Seu Luiz afirmou que era de imensa importância o que estava acontecendo ali naquele momento no campo, nunca antes atletas de futebol feminino chegaram até onde as garotas do futebol do Pinheirense chegaram. Ele assistia orgulhoso esta página da história sendo escrita. No gramado, sua filha, Tatiane Rosário, fazia a história que ele assistia.
“Tati”, 18 anos, como eu tomei a liberdade de chamá-la, segue em busca do sonho de se tornar uma grande atleta, assim como sua grande inspiração: Cristiane, que atua como atleta da Seleção Feminina de Futebol do Brasil. Tatiane vê na atacante da seleção seu objetivo como atleta.
Apesar de tímida, quando começamos a falar de futebol os olhos de Tati brilharam mais do que jóias raras, sua paixão e toda sua vida profissional são voltadas para o futebol. Muito elogiada pelo seu pai, ela é o orgulho da família por estar trilhando seu próprio caminho em busca de seu sonho de infância, assim como as que várias crianças essas que estavam ali, naquele mesmo momento, no Mangueirão.
Talvez, no futuro, alguma delas possa vir a se tornar uma grande ou um grande atleta. O primeiro passo que é o apoio da família, como o que “Tati” possui. Resta dedicação e incentivo. É justamente sobre incentivo, que eu falei com a Técnica do futebol Feminino do Carajás, Dona Márcia, Márcia do Carajás como ela gosta de ser chamada.
Dona Márcia diz que ela treina meninas de vários lugares do Estado como Soure e Salinas. As passagens dessas meninas são pagas por ela mesma. É ela ainda que desabafa destacando que mesmo com o crescimento do esporte, ainda falta bastante patrocínio, seja público ou privado.
As entrevistas, no entanto, por vezes eram interrompidas pelas reações que a partida suscitava. Por sinal, o jogo terminou com a vitória da Ferroviária por 4 a1. O gol do clube paraense, quando o Pinheirense perdia por 2 a 0, foi bastante comemorado. As pessoas “enlouqueceram”, as famílias estavam com esperança nos olhos, as crianças sorriam e todos estavam entusiasmados com toda essa movimentação.
Foi em uma destas interrupções que notamos um casal sentado um pouco afastado de toda essa euforia. O homem, Luiz Antônio, se disse impressionado com a capacidade das garotas, apesar de todas as dificuldades e mudanças de elenco, apresentarem um futebol de qualidade. Ele, que realiza os exames de rotina das meninas diz que sempre acreditou no potencial de cada uma delas, mas que ainda existem muitas barreiras a serem quebras. O preconceito é uma delas, ele conta que já ouviu algumas piadas pelo fato de elas serem mulheres e estarem jogando futebol, mas no geral ele apenas ignora porque ele vê que isso não é algo para se dar importância. O que basta, para ele, é o trabalho que as meninas vêm realizando e a dedicação que elas possuem para com o esporte.
É com esta confiança que acreditamos que resultados melhores dentro e fora de campo virão. Um capítulo singular na história do esporte no Pará – e, por que não, do Brasil – já começou a ser escrito. Nunca antes um time feminino do Estado havia chegado em um campeonato da Primeira Divisão. Para as pessoas ali presentes, essa foi a maior vitória do dia, tanto para quem pode escrever novas páginas desta história como também por quem estava presente no Mangueirão naquela tarde de quarta-feira.
Texto: Heverton Moraes (Estudante de Jornalismo na Estácio do Pará, sonhador, pensador, pesquisador/ Membro da Agência Além-Margem)
Produção: Raniely Souza (Estudante de Jornalismo na Estácio do Pará/ Membro da Agência Além-Margem)
Fotos/Produção: João Neto (Estudante de Jornalismo na Estácio do Pará/ Membro da Agência Além-Margem)


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