O clipe representa a vida? Confira a entrevista com a pesquisadora Victória Costa

Victória Costa é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA/UFPA), Bacharel em Cinema e Audiovisual (UFPA) e em Comunicação Social com ênfase em Publicidade e Propaganda (UNAMA). Fez parte da organização do Festival de Audiovisual de Belém (FAB) e esteve na produção de videoclipes como “Oswald Canibal”, de Henry Burnett e “Eu Quero Cerveja”, de Félix Robatto, e documentários como “Fisionomia Belém”, de Yasmin Pires e Relivaldo Pinho.

Com trajetória tanto acadêmica como profissional na produção e reflexão sobre videoclipes e periferia de Belém, a pesquisadora concedeu uma entrevista exclusiva à Agência Além-Margem sobre as temáticas, confira:

01. A arte muitas vezes representa a vida, a realidade. De que modo os videoclipes paraenses demonstram isto em relação a Belém?

Bom, o videoclipe parte da premissa do trabalho com canção e imagem em um produto só, então acredito que os videoclipes paraenses demonstram as cidades de diferentes formas. Desde expressões que são daqui, até locais que vão para além do turístico, sendo pontos que, em geral, só quem mora na cidade conhece. Então acredito que essa construção parte de um conhecimento, um contato prévio, às vezes cotidiano, que é demonstrado nos videoclipes. À isto, soma-se a grande quantidade de vídeos filmados em espaços pouco ou nada alterados de Belém por uma direção de arte, por exemplo, o que inevitavelmente leva uma carga de documentação daquela área e daquele contexto ao vídeo.

02. Que videoclipes retratam a periferia da capital paraense? De que modo?

É interessante primeiramente delinear bem o que é essa periferia. Acredito que, em um consenso geral, é tido como periférico, hoje, tudo que foge da vista (ou do gosto/opção) ou lugares comuns de quem mora no centro da cidade. Temos o bairro do Jurunas fazendo “fronteira” com a Batista Campos e, ainda assim, o primeiro é considerado periferia. É muito mais uma questão de interesse que de distância. Então isto reflete na formação destas periferias e, por conseguinte, nos vídeos que as retratam.

O “Matinha do Cruzeiro”, do Coletivo Rádio Cipó, é um exemplo dos primeiros vídeos neste formato em Belém, trazendo críticas sociais à toda sem nenhum tipo de suavização. Seja nos lugares filmados (canal, ruas do bairro da Matinha), seja na letra da música. “Guamá SoundSystem”, do grupo Lauvaite Penoso, já revela uma Terra Firme de uma forma mais “leve” e colorida, com personagens que interagem cotidianamente, mas mostrando as ruas sem asfalto, falando da situação de falta de segurança e de outras peculiaridades do bairro. E o “Devorados”, que mostra várias nuances de uma área considerada perigosa, mas usa a poética da cotidianidade de crianças para acompanhar essa realidade.

03. É possível dizer que há uma tradição em representar a periferia paraense em videoclipes?

Acredito que não. Existe, sim, uma forte tendência, se considerarmos a última década, mas viemos ainda de um histórico de um retrato do turístico e um bairrismo obstinado, da “Belém Morena” da chuva e do tacacá. Se for pra vislumbrar algum tipo de cenário que tem se repetido e acredito (espero) que assim siga, aí sim, acredito que a periferia se destaca. Os contextos que têm se desvelado desde os anos 2000, com maior ênfase para a virada de 2010 e essa década em que estamos, trazem maiores facilidades de produção e divulgação assim como a discussão de temáticas sociais de forma mais contundente, o que resulta em produtos audiovisuais descentrados, falando de outras realidades, outras histórias, o que também resulta em outros espaços para contá-las.

04. Que videoclipe(s) acreditas que é/são a síntese da periferia da capital paraense?

Acredito que o “Devorados”, do Madame Saatan, dirigido pela Priscilla Brasil, apesar de ter sido filmado há mais de 10 anos, ainda é muito representativo. O cotidiano da Vila da Barca foi documentado a partir das crianças que conviviam naquele espaço. As brincadeiras, os percursos que faziam por entre os caminhos de madeira ainda são presentes de alguma forma, assim como as atividades de quem transita por lá ou mesmo a presença de policiais. É um videoclipe no qual encontramos uma localidade com descaso do governo, a cotidianidade permeada pela Baía do Guajará (ainda que por vezes a cidade como um todo a ignore), a falta de segurança (apesar do sabido estigma aliado à comunidade, os convívios rotineiros com isto, das pessoas de lá, se desenrolam de outra forma) e todo um contexto que existe para além da figura midiatizada e que a cidade conhece, então creio que são pontos que unem algumas das periferias de Belém.

05. Como produtora audiovisual e pesquisadora, o que acreditas que poderia ser melhor observado e mesmo representado na periferia na Amazônia?

Aprendi, no curso da pesquisa de dissertação e mesmo contatos no meio cultural que ainda nos falta olhar cada vez mais para o nosso entorno, atentar para os lados, essas vizinhanças que ignoramos todos os dias ainda têm muitas histórias para serem contadas. Precisamos sair do saudosismo de uma Belle Époque e ter nosso presente como inspiração. Sem retratar o que “poderíamos” ser, mas o que de fato somos e fazemos. Aceitar nossas periferias, que não somos só Ver-o-Peso e que já se passaram décadas demais pra se inspirar em europeizações rasas. O cotidiano da periferia guarda características fortes e identidades que precisamos conhecer.

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