Nos últimos dias, a Revista CULT lançou uma edição especial sobre poesia. Com o título “Poemas para ler antes de notícias”, a Antologia Poética contou com a curadoria do professor universitário e poeta Alberto Pucheu. Outro grande destaque da publicação é a sua capa, assinada pelo paraense Paulo Victor Dias, o PV, que possui ainda outras 12 obras na publicação.
Criada através da técnica da ilustração digital, Paulo explica que “a capa foi uma releitura de uma série que eu tenho com foco sobre balaclavas e o anonimato da juventude iniciada no crime. É uma série que faço balaclavas em vários suportes. Também busco pensar sobre o que marginaliza os rostos negros”, afirma.
Ainda de acordo com ele, “a princípio a ideia era utilizar uma pintura a óleo que eu tinha feito, mas optamos por pensar em outra, digital. Acho que ficou linda e o diretor de arte Fernando Saraiva conseguiu articular muito bem a proposta. Jamais faria algo que fugisse do meu trabalho e tive total liberdade”, destaca.
O alcance da produção do jovem paraense não é aleatório nem aconteceu “do dia para a noite”. Pelo contrário. Além de ilustrador, Paulo, 25 anos, é comunicólogo e mestrando em Ciências Sociais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O jovem possui como referências os fotógrafos Eugène Atget e Berenice Abbott e os artistas visuais Wilson Tibério, Antônio Rafael Pinto Bandeira, Benedito José Tobias, Wallace Pato, Andrey Kasay, Mulambo, Maxwell Alexandre e o paraense Eder Oliveira.
Atualmente morando em Seropédica-RJ por conta do mestrado, ele possui grande ligação a Igarapé-Miri e a Cametá, no interior do Pará, e morou por vários anos na capital fluminense. Já viajou também por países como Argentina, Uruguai, Venezuela e Peru, que o instigam a produzir reflexões sobre a vida contemporânea urbana em suas produções. “Do Rio de Janeiro para Cametá, de Belém para Buenos Aires. Há sempre uma comunidade ali circulando, uma comunidade vivendo, fazendo suas caminhadas, criando aquelas imagens todas sobre a cidade. Eu sempre penso nisso, vendo aquelas rotinas, vendo aquelas vidas dando imagens às cidades e faço isso também”, explica PV.
O CONVITE
O convite para a produção da capa ocorreu ainda em junho e foi feito pelo designer e diretor de arte Fernando Saraiva, algo que surpreendeu e obviamente deixou Paulo bastante contente. “É uma felicidade incrível! No princípio, meus trabalhos só iam no conteúdo (no interior da revista), depois conversamos para que eu fizesse a capa e eu fiquei muito feliz. Eu estava ‘doido’ para pensar minha produção junto com o circuito editorial, mas não sabia como. ‘Do nada’ me enviam e-mail me convidando para ter meu trabalho lá. Fico alegre também por ser uma antologia poética, uma edição especial da CULT, com textos lindos”, comemora o artista.
É Paulo ainda que afirma que “a arte escrita carrega grande potência política e crítica. Ao todo são 12 trabalhos meus na revista, além da capa. Espero ter outras oportunidades de no futuro continuar pensando minhas produções artísticas nas articulações editoriais. Acredito muito nesses meios como uma forma também de fazer a ‘mensagem’ da minha arte circular para diversas pessoas”, sintetiza.
A ARTE DE PV DIAS
Ilustrações feitas com tons e traços fortes. Sujeitos perdidos na confusão tecnológica e urbana, marcados por expressões cansadas, talvez blasés. Cidades em ruínas, decadentes. Situações históricas revistas ou (re)criadas em locais contemporâneos, mas que demonstram chagas do passado, apresentando críticas ao racismo e a outras tristes e preocupantes formas de preconceito.
Atento ao papel social que a arte pode ter e com um vigor estético instigante e singular, PV Dias atualmente vem ganhando destaque na produção artística contemporânea.
Neste ano ele já foi destaque na revista eletrônica VICE, portais e jornais, além de ter participado de várias exposições no país. “Este ano participei da exposição coletiva ‘Arte Naif: Nenhum Museu a Menos’, que aconteceu no Parque Lage, Rio de Janeiro, com curadoria de Ulisses Carrilho. Também participei aqui no Rio de uma exposição coletiva no espaço Caixa Preta, com curadoria do artista paraense Rafael Bqueer. Agora em agosto e setembro tenho mais duas: uma no Instituto Goethe da Bahia, com curadoria do Tiago Sant’Ana e outra aqui no Rio de Janeiro, no espaço Pence, com curadoria de Silvana Marcelina. Esse ano ainda quero participar ou articular alguma exposição no Pará, vou ver se consigo esse semestre planejar algo com artistas e curadores paraenses. Seria incrível!”, enfatiza.
Com cada vez mais destaque, Paulo não deixa as raízes de lado, nem o papel político de suas produções. É por isso que ele indica a quem quiser conhecer mais a arte contemporânea, inclusive a sua: “Observem bem, reflitam, contemplem. Pensem sobre as diversas narrativas surgindo no mundo. Acima de tudo: olhem a sua volta. Olhem a cidade. As pessoas. Os restaurantes. Quem serve. Quem está sendo servido. Olhem o caderno policial e a coluna social. Olhem para trás, para o passado. Isso é o que eu queria pedir para todo mundo fazer antes de ver qualquer trabalho meu. Meu trabalho é expressão de o que se passa na minha cabeça, imagens que já são criadas e eu só tento colocar para fora e dar vida”, finaliza.
CONHEÇA MAIS
Site: https://cargocollective.com/pvdias
Instagram: https://www.instagram.com/palovitu/


Deixe um comentário