A expressão “Marca Amazônia” pode parecer apenas mais uma etiqueta, mas carrega muito mais do que um simples rótulo: ela representa um conjunto de valores, identidades, histórias e imagens que moldam a forma como percebemos a região. Ao entendermos o que diz esse conceito, ficamos mais conscientes das potencialidades e armadilhas que envolvem a representação da floresta e de quem nela vive.
A ideia de uma “marca Amazônia” surgiu conforme empresas e projetos passaram a usar o nome da região como sinônimo de natureza exuberante, pureza, exotismo ou sustentabilidade. São selos em produtos, estampas em camisetas, ações publicitárias e logotipos que evocam rios, indígenas, igarapés, biodiversidade e países da região. Mas essa utilização vai muito além do visual — ela cria um imaginário que pode influenciar consumo, turismo e até a política de preservação ambiental.
É justamente sobre esse fenômeno que Otacílio Amaral Filho, professor da UFPA, refletiu em sua tese de doutorado “A marca Amazônia: uma promessa publicitária para fidelização de consumidores nos mercados globais” (2008). Segundo o autor, chamar qualquer produto de “amazônico” é conferir a ele um status simbólico, um valor publicitário que traz junto a ideia de ecologia, responsabilidade social e conexão com a floresta. Estampar peixes, igarapés ou indígenas não é apenas design: é reafirmar uma lógica de mercado.

A formalização desse conceito veio da universidade para o cenário prático: por exemplo, durante eventos como a COP 30, na UFPA, projetistas criaram uma identidade visual com base na “Marca Amazônia”, usando cores inspiradas na terra, nos rios e na mata, para reforçar o vínculo entre pesquisa, localidade e comunicação visual.
Até aí tudo soa positivo — mas há riscos. Otacílio alerta que o uso da marca só se justifica se houver substância por trás dela — e isso exige cuidado. Se a identificação com a Amazônia se limita a um logo bonito, estampa ou discurso vazio, o resultado é vazio e até oportunista. A “Marca Amazônia” pode virar vitrine, bagunçando a percepção sobre causas ambientais, realidades culturais e práticas sustentáveis. ([cop.dol.com.br][1])
Além disso, há uma certa homogeneização na comunicação. Quando se pesquisa “Amazônia” no Google Imagens, geralmente aparecem florestas, rios e indígenas — quase sempre nos mesmos tons e enquadramentos. Essa uniformidade revela como dominam certas representações, enquanto faltam outras visões — como os trabalhadores urbanos, as periferias, a moda local, a cultura metropolitana. A Amazônia tem múltiplas faces e narrativas.
A marca pode ser também um atalho: políticas públicas ou campanhas podem apelar para a identidade amazônica para ganhar legitimidade. Mas sem conexões reais com comunidades, saberes tradicionais e impactos positivos, tal estratégia corre o risco de virar discurso vazio.
Então, o que vem a ser a Marca Amazônia?
Ela é um ativo simbólico poderoso — o slogan que associa produtos ou ações a valores ambientais, sociais e identitários da região. É também um elemento que pode atrair atenção, investimentos ou mobilização — quando usado com responsabilidade.
Para que ela não se esvazie, é preciso colocar conteúdo concreto: envolver populações locais, promover bioeconomia comunitária, valorizar culturas indígenas e construir vínculos entre marcas e territórios. A marca só vale se vier acompanhada de compromissos reais.
Em resumo, “Marca Amazônia” pode ampliar oportunidades — produtos, turismo, ciência — desde que recoloque a Amazônia como agente, e não apenas cenário. Representar a Amazônia com profundidade significa acolher sua diversidade social, cultural e ecológica. E, acima de tudo, usar a marca de forma que reforçamos a importância de cuidar da floresta — sem reduzi-la a uma simples imagem bonita.
Esse é o ponto: a marca existe e é poderosa. Cabe fazer dela instrumento de valorização da região, aliado às pessoas, comunidades e territórios — e não somente um selo descolado da próxima moda.


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