Durante as festas juninas de junho e julho, em Belém do Pará, ganha vida uma das manifestações culturais mais emblemáticas de Belém: o Arraial do Pavulagem. Mais que uma festa de rua, trata-se de um cortejo musical que mistura carimbó, siriá e lundu marajoara, arrastando milhares de pessoas pelas avenidas da capital paraense.
O movimento nasceu em 1987, quando músicos como Ronaldo Silva e Júnior Soares começaram a animar shows gratuitos na praça Republicana (Praça da República). Inicialmente chamado de “Pavulagem do Teu Coração”, o grupo expandiu-se até se reinventar como Arraial do Pavulagem, incorporando elementos festivos, instrumentos regionais e danças populares.
Seu evento principal, o chamado Arrastão do Pavulagem, é um cortejo que começa no trapiche da Praça Princesa Isabel, em um trajeto fluvial, e segue até a Avenida Presidente Vargas, com música, fantasias coloridas, chapéus de palha com fitas e muita energia popular. Hoje, o cortejo reúne entre 15 mil e 35 mil pessoas por edição, criando uma explosão de cores, ritmos e alegria.
O espetáculo é conduzido pelo Instituto Arraial do Pavulagem – ONG criada em 2003 – que pesquisa, produz e difunde a cultura amazônica, com olhar tanto nos ritmos tradicionais quanto em expressões contemporâneas. O grupo também realiza outros cortejos, como o Arrastão do Círio, em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, e o Cordão do Peixe‑Boi, um cortejo ambiental e educativo que mobiliza crianças e adolescentes.
O reconhecimento oficial chegou em etapas: Patrimônio Cultural de Belém, em 2017; do Estado do Pará, em 2020; e, em setembro de 2024, o movimento foi reconhecido como Manifestação da Cultura Nacional pela Lei 14.961, sancionada pelo presidente Lula. Esse marco reforça a relevância da Pavulagem para a representação da identidade amazônica.
O charme da celebração está no sincretismo entre religiosidade católica e ancestralidade local. Ao som dos tambores de barrica e dos cantos tradicionais, os brincantes dançam em roda, evocando rituais de fé, natureza e coletividade. O boi-bumbá, herança do folguedo, ressurge no cortejo, revivendo narrativas populares ao ritmo do carimbó e das lendas regionais.
Visualmente, o Arraial é um espetáculo impactante: multidões fantasiadas e chapéus enfeitados atravessam as ruas, carregando estandartes e entoando toadas, celebrando a cultura paraense de forma plena e democrática. A festa oferece oficinas, rodas de canto e ações educativas que reforçam o valor dos saberes tradicionais e inspiram novas gerações.
Este arraial popular vai além do entretenimento. Ele fortalece a identidade amazônica, promove inclusão social e afirma um posicionamento político-cultural que valoriza o folclore como patrimônio vivo, dinâmico e pertinente. A cada arrastão, gera orgulho, memória e pertencimento, conectando passado e futuro da cultura local.
Em Belém, o Arraial do Pavulagem se converteu em símbolo de resistência cultural e celebração coletiva — um evento que amplia horizontes, afirma existências e faz vibrar a alma do Pará à força de tambores e cores.
Foto: Geovane Brito/TV Liberal


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