Além de Garantido e Caprichoso, você sabe qual é o terceiro boi de Parintins? Conheça o Boi Campineiro

O Festival Folclórico de Parintins é um dos maiores espetáculos culturais do Brasil e símbolo da riqueza amazônica. Mundialmente conhecido pela vibrante disputa entre os bois Garantido (vermelho) e Caprichoso (azul), o evento é um verdadeiro fenômeno popular. Mas o que poucos sabem é que, por um período da história, existiu um terceiro bumbá envolvido nessa rivalidade: o Boi Campineiro.

Com suas cores verde, amarelo e branco, o Campineiro surgiu como uma alternativa no embate folclórico da Ilha Tupinambarana. Caracterizado por um boi cinza com um sol na testa, ele brilhou principalmente nas décadas de 1970 e 1980, chegando a alcançar o vice-campeonato em 1978 e 1982. Sua presença marcava uma terceira via na arena, misturando irreverência, ousadia e o desejo de representar a diversidade cultural do povo parintinense.

A origem do Boi Campineiro, no entanto, é cercada por versões distintas. Enquanto Eduardo Paixão, presidente da agremiação à época, afirmava que o boi havia sido fundado por seu pai, Emídio Souza, ainda em 1890, outros relatos apontam para uma fundação mais recente, por volta de 1977, como uma brincadeira no bairro de Palmares. Há ainda a versão de Carlos Leocádio, o Camoca, figura histórica que assumiu a liderança do boi nos anos 1980 e teve seu nome registrado como guardião oficial do Campineiro em cartório, em 2003.

Os ensaios do Campineiro ocorriam na antiga quadra do Projeto Rondon, ligada à Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), enquanto sua base era a casa do Camoca, na rua Fortaleza. Mesmo com estrutura modesta, o Campineiro encantava com apresentações criativas, que usavam o branco para destacar os detalhes de cena e reforçavam o apelo nacional com o verde e o amarelo.

O auge do Boi Campineiro aconteceu em duas edições históricas. Em 1978, o Caprichoso tentou participar do festival realizado no reduto do Garantido, mas foi recebido com vaias e objetos arremessados, resultando em um confronto que culminou na retirada do boi azul da competição. O Campineiro, então, disputou diretamente com o Garantido. O mesmo aconteceu em 1982, quando o Caprichoso boicotou o festival em protesto à indicação do vice-prefeito Edu Costa, torcedor declarado do Garantido, como presidente da comissão julgadora. Assim, mais uma vez, o Campineiro assumiu o protagonismo ao lado do boi vermelho.

No entanto, a ausência de uma torcida forte e estruturada como as de seus rivais foi um obstáculo. De acordo com relatos do jornalista Jonas Santos, autor do livro “Boi Campineiro, a história do Festival de Parintins que não foi contada”, muitos dos envolvidos com o Campineiro eram, na verdade, torcedores do Caprichoso ou do Garantido. Isso, somado à pressão política e institucional, levou à sua saída definitiva do festival.

A decisão de excluir o Campineiro da disputa partiu das próprias diretorias de Garantido e Caprichoso, que não desejavam dividir espaço nem apoio do poder público com um terceiro competidor. Desde então, o festival se consolidou como um duelo entre apenas dois bois, apagando, em parte, a memória de um bumbá que ousou ser diferente.

Em 2013, o livro-reportagem de Jonas Santos resgatou essa narrativa esquecida. Com organização de Renan Albuquerque e apresentação do ex-secretário de Cultura Robério Braga, a obra reúne documentos e depoimentos que ajudam a reconstruir a trajetória desse personagem oculto da cultura parintinense. O Campineiro pode não ter resistido à força da tradição dual, mas seu legado permanece como um símbolo da pluralidade cultural da Amazônia.

O Boi Campineiro talvez não tenha o peso midiático de Garantido e Caprichoso, mas sua história é essencial para compreender a complexidade do Festival de Parintins. É um lembrete de que a cultura popular é feita não apenas dos vencedores consagrados, mas também dos esquecidos que ousaram sonhar — e cantar — sob o mesmo céu amazônico.

Foto: Ex-presidente do Bumbá Campineiro, Eduardo Paixão. Foto: Jonas Santos

Reprodução: portalamazonia.com/cultura/conheca-o-campineiro-o-terceiro-boi-bumba-de-parintins/

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