Na manhã desta terça-feira, 26 de agosto, o carimbó perdeu uma de suas vozes mais potentes. Quer dizer: ganhou a eternidade uma das principais vozes do carimbó da Amazônia e do Brasil.
Morreu em Belém, em 26 de agosto de 2025, o compositor, poeta e cantor Mestre Damasceno, ícone da cultura popular do Marajó e criador do Búfalo-Bumbá de Salvaterra. O falecimento “coincidiu” com o Dia Nacional do Carimbó, espécie de última homenagem e reconhecimento por parte do destino.
Nascido em 1954 na Comunidade Quilombola do Salvá, em Salvaterra, arquipélago do Marajó, Damasceno transformou memórias, ladainhas, toadas e ritmos de terreiro em espetáculo popular. Foi ele quem concebeu, nos anos 1980, o Búfalo-Bumbá, manifestação junina que combina teatralidade de rua, musicalidade do carimbó, poesia oral e os búfalos. A partir de Salvaterra, seu cortejo atravessou o Pará, inspirou grupos, formou gerações e se tornou referência de identidade cultural paraense.
Mais que compositor popular, Damasceno foi um criador de linguagem. Sua obra depurou o carimbó em arranjos e versos que falam de território, afeto e resistência, evocando a tradição quilombola e a vida ribeirinha. Na última década, o reconhecimento cresceu: em maio de 2025, ele recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC), a mais alta honraria do Ministério da Cultura, distinção destinada a personalidades que ampliam o patrimônio imaterial brasileiro. A homenagem coroou um percurso de seis décadas dedicadas à cultura popular.
A centralidade do seu legado também se expressa no reconhecimento institucional das expressões que ajudou a projetar. Em 2023, o governo do Pará declarou a obra de Mestre Damasceno patrimônio cultural de natureza imaterial do estado, movimento que reforçou a salvaguarda de saberes e modos de fazer associados à sua criação.
Nos palcos, Damasceno era um contador de histórias que fazia da voz um documento vivo. Suas toadas sempre preservaram a cadência do carimbó de raiz, sem abrir mão de experimentações. Ao conduzir o Búfalo-Bumbá, ele aproximava o público do teatro popular, misturando humor, drama e júbilo em narrativas que falavam de pescarias, romances, bravatas e da vida nos campos do Marajó. O resultado era um espetáculo de rua encharcado de Amazônia, com coreografias, indumentária e instrumentos que ressignificavam a paisagem marajoara.
Parte dessa vitalidade vinha de sua escuta atenta aos mestres mais velhos e às novas gerações. Damasceno abria espaço para a juventude, chamando músicos e dançarinos a aprender o ofício artístico. O Búfalo-Bumbá, nesse sentido, foi também uma escola — informal, gratuita e profunda — de pertencimento e cidadania cultural.
Para além das cerimônias e do luto, sua trajetória marca temas essenciais: salvaguarda do patrimônio imaterial, políticas de fomento continuado, educação patrimonial nas escolas e circulação nacional das manifestações amazônicas. Damasceno sempre entendeu que a festa é linguagem e que a linguagem é política cultural. Seu Búfalo-Bumbá, ao tematizar o búfalo — animal, mito e economia —, organizou poéticas e disputas simbólicas sobre o Marajó, tornando-se um dispositivo potente de leitura do território.
O legado do mestre também atravessa fronteiras. A presença do Marajó que ele encenou reverbera em grupos de carimbó pelo país, em pesquisas acadêmicas e em registros audiovisuais que documentam a força do batuque, do curimbó, do maracá e da dança em roda. O prestígio nacional consolidado pela OMC ajuda a projetar esse repertório para além do Pará, abrindo janelas para que mais brasileiros encontrem a festa e a história que ela carrega.
Mestre Damasceno parte, vira Encanto, é e deixa uma obra eterna. Está nas toadas que ecoam nos terreiros, na corpulência do Búfalo-Bumbá, nas memórias, nas coreografias de rua, nos carnavais e nos arraiais. Está, sobretudo, no gesto de ensinar que tradição é movimento — roda que se renova quando mais gente entra para dançar. Para quem ama o carimbó, o melhor tributo é simples e exigente: manter a batida acesa, apoiar mestres e jovens artistas, e reconhecer que a cultura popular é um fazer coletivo, vivo e indispensável para a Amazônia e para o Brasil.


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