O cinema amazônico e brasileiro viveu intensa expectativa com a trajetória de Manas, filme dirigido pela brasiliense Marianna Brennand e rodado no arquipélago do Marajó, no Pará.
A produção, baseada em histórias reais de meninas vítimas de exploração e violência sexual na região, chegou a ser cotada como representante oficial do Brasil na disputa por uma vaga ao Oscar 2026. Apesar do reconhecimento da crítica, dezenas de premiações e da comoção que despertou em exibições internacionais, a obra não foi escolhida pela Academia Brasileira de Cinema.
O longa-metragem é um retrato duro, mas necessário, das feridas sociais que marcam a realidade amazônica. Com atuações marcantes, lideradas por Dira Paes, Manas foi definido por críticos como um “chute no estômago” pela forma sensível e ao mesmo tempo contundente com que abordava a violência contra meninas em situação de extrema vulnerabilidade.
Mais do que uma narrativa ficcional, o filme ecoava denúncias de um cotidiano que raramente alcança os holofotes do cinema internacional, colocando no centro do debate as urgências de uma região onde desigualdade, ausência do Estado e exploração caminham lado a lado.
Disputa
Nas últimas semanas, durante o processo de escolha do filme brasileiro para o Oscar, Manas protagonizou uma disputa acirrada com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. A escolha do filme pela comissão gerou polêmica nas redes sociais, dividindo o público e levantando discussões sobre critérios de representatividade, impacto social e potencial de diálogo com a Academia.
Para muitos, a força dramática e o apelo internacional de “Manas” justificavam plenamente a indicação, enquanto outros defendiam que a narrativa mais tradicional de “O Agente Secreto” se alinhava melhor ao perfil do Oscar. Essa tensão ampliou ainda mais a visibilidade do longa gravado no Marajó, que ganhou manchetes e despertou interesse até de grandes nomes do cinema mundial.
A repercussão foi potencializada por sessões especiais organizadas em Los Angeles, que contaram com a presença de astros como Julia Roberts e Sean Penn, que se tornou uma espécie de porta-voz do projeto. Essas exibições, promovidas por Paris Filmes, aproximaram “Manas” de críticos e formadores de opinião, garantindo espaço em veículos internacionais e ampliando sua repercussão para além do circuito tradicional.
O fato de ter ficado de fora, no entanto, não diminuiu o peso da obra na cena cultural amazônica e brasileira. Ao contrário: “Manas” reforçou a capacidade do cinema nacional de unir denúncia social, linguagem estética sofisticada e impacto emocional. Gravado inteiramente em território amazônico, o filme levou para o mundo não apenas o talento de seus atores e diretores, mas também as paisagens, sonoridades e realidades do Marajó, um território que até então raramente ocupava espaço de destaque no cinema global. Essa escolha estética e política deu ao longa um caráter único, tornando-o um símbolo de resistência cultural e de valorização da Amazônia.


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