Um projeto conduzido por George Ferreira, graduado em Comunicação Social e mestrando em Artes na Universidade Federal do Pará (PPGARTES-UFPA) pode se tornar uma das iniciativas mais significativas no campo do audiovisual amazônico contemporâneo. Criado para mapear roteiristas negras(os) e/ou afro-indígenas, o estudo busca identificar e valorizar produções de ficção — entre curtas, médias, longas, séries, webséries e videoclipes — criadas por profissionais da Amazônia Legal (Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Mato Grosso e Maranhão).
Mais do que uma coleta de dados, a pesquisa se propõe a construir um panorama crítico das narrativas negras e afro-amazônicas no cinema e nas telas brasileiras. George explica que o objetivo principal é compreender “como outras epistemologias — como a oralidade, a circularidade e as encantarias — se manifestam nas estruturas narrativas e criativas desses roteiristas”. Ele ressalta que esses modos de criação se contrapõem a modelos eurocêntricos e hollywoodianos, oferecendo uma contribuição estética e política profunda.
“O que já chama atenção na pesquisa é perceber como os roteiristas negros e afro-indígenas da Amazônia vêm construindo estruturas narrativas que fogem do modelo clássico. Muitos desses trabalhos se aproximam da oralidade e da relação com o território como princípios de organização das histórias. Ou seja, não se trata apenas do que é contado, mas de como se conta”, afirma.
A proposta nasceu da constatação de que há uma invisibilidade histórica no reconhecimento de roteiristas da Amazônia. Para George, o apagamento começa ainda dentro da própria indústria audiovisual, onde o roteirista, em geral, é pouco valorizado. “Já há uma desvalorização e invisibilização do profissional/artista Roteirista no audiovisual e que já é uma luta antiga de associações no âmbito nacional. Então se tratando da região amazônica o cenário se agrava, por isso é tão importante conhecer e reunir informações sobre esses profissionais e tentar compreender o seu fazer artístico”, explica.
O pesquisador destaca que, além da importância simbólica e acadêmica, o levantamento também tem uma função prática: servir como base para políticas públicas de fomento e formação. “o mapeamento e a pesquisa em si podem ser catalisadores para que se consiga ampliar as políticas públicas e investimentos voltadas à área do desenvolvimento de roteiro no audiovisual da Amazônia para que esses profissionais possam ser valorizados, remunerados e respeitados na cadeia produtiva.”, acrescenta.
Trajetória exemplifica a experiência e pesquisa
George Ferreira é um exemplo do encontro entre vivência e pesquisa. Nascido na Vila Vintém, favela da Zona Oeste do Rio de Janeiro, e hoje morador no Pará, ele é roteirista e produtor executivo com trajetória consolidada no mercado nacional. Participou de produções para plataformas como Max, Paramount+ e Amazon Prime, e foi contemplado em laboratórios como o Lab Negras Narrativas e o Sesc Argumenta. Seu olhar sobre a Amazônia é o de quem compreende as margens como centro pulsante de criação e potência.
“Durante muito tempo, e ainda hoje, a universidade brasileira olhou para o cinema a partir de um referencial teórico eurocêntrico, que pouco reconhece outras formas de pensar e
estruturar narrativas. Um exemplo disso é o Encontro Socine, que já acontece há quase 30 anos, aconteceu pela primeira vez na região norte apenas este ano, na 28° edição aqui em
Belém na UFPA. Então trazer essa discussão para dentro do espaço acadêmico significa romper com hierarquias do saber, ampliando o campo das artes e do audiovisual para incluir epistemologias que nascem da oralidade, da ancestralidade e da experiência coletiva”, pontua.
Ele reforça que o projeto é também um gesto estratégico, político e importante para uma cadeia necessária de reparação histórica: “Mapear esses trabalhos é também construir memória, afirmar pertencimento a partir dessa criação de imagens emancipatórias e assim conhecer os caminhos que já foram abertos para as novas gerações de artistas que querem contar histórias a partir da e com a Amazônia e toda sua potência e pluralidade para pensar e pautar novos futuros possíveis.”
Mais do que um estudo, a pesquisa é um convite à escuta e reflexões. George enfatiza que “a academia também precisa ouvir nossas vozes, entendendo que a Amazônia não é apenas um tema, mas um lugar de produção de pensamento. Essa pesquisa busca, portanto, abrir caminhos para novas metodologias, poéticas e teorias, em que o fazer artístico e o pensar acadêmico se entrelaçam, fortalecendo a presença de artistas-pesquisadores comprometidos com a diversidade e a descolonização do olhar”, conclui.
Participe e divulgue!
O formulário para participação segue aberto e pode ser preenchido por roteiristas negras(os) e afro-indígenas da Amazônia Legal que atuem ou já tenham atuado na criação de obras de ficção. Clique aqui para acessar o formulário!


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