Faltam exatamente 21 dias para a COP 30 e a realização do megaevento em Belém reacende um debate que vai além das negociações climáticas: por que as grandes transformações urbanas parecem depender de eventos grandiosos?
O artigo “A COP 30 como megaevento e as transformações urbanas em Belém (PA)”, da professora Olga Lúcia Castreghini de Freitas (UFPA), analisa essa questão sob a ótica da geografia urbana e dos efeitos que eventos internacionais produzem nas cidades que os sediam.
A autora explica que, por reunir líderes de quase 200 países, empresas, ONGs e observadores, a COP 30 se enquadra no conceito de megaevento — termo usado para designar acontecimentos de grande visibilidade, alto custo e forte impacto sobre o ambiente urbano. Além das negociações climáticas, uma conferência dessa magnitude exige uma estrutura complexa: centros de convenções, hotéis, transporte, segurança, alimentação e comunicação. Essa engrenagem mobiliza governos, investimentos e decisões políticas, muitas vezes em ritmo acelerado.
O estudo mostra que o projeto “COP 30 em Belém (PA): das oportunidades de transformações urbanas aos desafios para a participação e controle social”, apoiado pelo CNPq, reúne cerca de 50 pesquisadores de diferentes áreas. A proposta é analisar criticamente como essas obras e planos podem — ou não — gerar benefícios reais para quem vive na cidade. Entre os eixos de pesquisa estão infraestrutura, mobilidade, conservação do centro histórico, economia urbana e políticas de participação social.
Segundo Olga Freitas, há um paradoxo evidente: muitas das obras anunciadas — como o Porto Futuro II, a macrodrenagem, os parques lineares da Doca e da Tamandaré e a revitalização do Ver-o-Peso — extrapolam as exigências feitas pela ONU para sediar o evento. Ou seja, poderiam ter sido executadas antes, mas só se tornaram viáveis com a pressão e os recursos associados à COP. Isso revela um padrão conhecido em megaeventos realizados no Brasil e no mundo: a priorização de obras voltadas à visibilidade internacional e ao turismo, enquanto necessidades locais permanecem em segundo plano.
A análise alerta ainda para os riscos que acompanham esse tipo de mobilização. Obras aceleradas podem flexibilizar legislações ambientais, provocar remoções e valorizar artificialmente o solo urbano, favorecendo setores econômicos específicos. O desafio, portanto, é garantir que os investimentos públicos e privados promovam uma cidade mais justa e sustentável, e não apenas um palco temporário de negociações.
Como lembra a autora, é preciso diferenciar celebração de compromisso. A COP não é uma festa, mas uma reunião para tratar de temas dramáticos para o planeta. Para Belém, a oportunidade vai além de sediar um evento global: está em demonstrar que é possível planejar transformações que fiquem como legado para sua população. A pergunta que fica é se a cidade conseguirá transformar o impulso do megaevento em políticas permanentes, que priorizem as pessoas e não apenas os holofotes.
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O artigo está disponível na 5ª edição da revista Ciência e Vozes da Amazônia na COP 30, iniciativa mensal que apresenta conhecimentos científicos e sociais produzidos na Amazônia, buscando dar visibilidade a esses saberes e ampliando sua circulação. Com esse propósito, a revista é publicada em português e traduzida para inglês, francês e espanhol, ampliando o alcance internacional das vozes amazônicas. Clique aqui e acesse!
Os textos abordam temas que conectam a Amazônia às discussões globais sobre mudanças climáticas, explorando diferentes dimensões — humanas, ambientais, culturais e científicas — que compõem a sociobiodiversidade da região e sua relação com os debates da COP 30.
Desde fevereiro, já foram lançadas cinco edições, reunindo artigos de diversas áreas do conhecimento e destacando o papel essencial da ciência amazônica na construção de soluções sustentáveis para o clima e para o futuro do planeta.


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