Amazônia EcoQueer exibe vídeos de artistas LGBTQIAPN+ de Belém, Manaus e Porto Velho no Reino Unido

Um atento e importante diálogo entre encontros: água e corpo, Brasil e Reino Unido, arte e política, passado e futuros desejados. Assim podemos nos referir ao projeto Amazônia EcoQueer, coordenado pelo pesquisador, artista visual e curador paraense Danilo Baraúna.

Amazônia EcoQueer propõe não apenas uma mostra ou pesquisa, mas um gesto de escuta e transformação — uma travessia que começa na beira do rio e alcança o mundo. Ele é uma iniciativa de pesquisa, curadoria e circulação internacional de filmes e vídeos de artistas LGBTQIAPN+ da Amazônia Brasileira.

Grande público acompanhou a primeira exibição de filmes do projeto. Foto: Danilo Baraúna

O objetivo é compreender como essas narrativas têm imaginado futuros ecológicos e cuir|queer para a região em um tempo marcado pela crise climática, pelo avanço do racismo ambiental e por disputas em torno da sobrevivência de territórios, saberes e existências.

A pesquisa de Danilo é realizada na Universidade de Newcastle (Inglaterra, Reino Unido), com apoio da British Academy, e teve exibição coletiva piloto na galeria Newcastle Contemporary Art, na última quinta-feira, 6 de novembro de 2025. Intitulada “Ecologias da Beira”, a mostra reuniu produções que partem da imagem da água — seja rio ou mar — para construir poéticas que tratam da relação íntima entre corpo, território, ancestralidade, trabalho e afetos. Os filmes apresentam performances e narrativas que percorrem margens, limites e travessias: autobiografias trans, histórias de amor queer nas ilhas, atravessamentos entre vidas humanas e não humanas e registros de práticas culturais ribeirinhas.

“Esta pesquisa começou a nascer ainda em 2022, ano em que voltei para Belém após quatro anos morando em Glasgow, na Escócia, para cursar meu doutorado”, explica Danilo. “Esse retorno à cidade foi também um retorno ao audiovisual experimental produzido aqui. Eu já vinha pesquisando esse campo há pelo menos 15 anos. A exposição é, de certa forma, uma continuidade desses encontros e partilhas”, destaca.

Da Amazônia para o mundo

A proposta do Amazônia EcoQueer foca especialmente no processo de internacionalização de obras feitas por artistas LGBTQIAPN+ de Belém, Manaus e Porto Velho, conectando temas como justiça climática, biodiversidade, encantarias, circularidade e histórias afro-indígenas. Para Danilo, internacionalizar esse material não significa reproduzir lógicas coloniais, e sim tensioná-las: “Falar de circulação internacional, especialmente na Europa, em meio às discussões contemporâneas sobre decolonialidade, é um trabalho desorientador. Estamos levando essas obras para países historicamente responsáveis pela expropriação de territórios do Sul Global. Por isso, é preciso cuidado. Mas também existe aí um espaço de fricção que me interessa — o encontro entre formas distintas de produzir conhecimento.”

O paraense Danilo Baraúna é pesquisador, artista visual e cursa atualmente o Doutorado em Artes na Universidade de Newcastle.

Um dos pontos que mais emocionam o curador é o gesto político da própria seleção: “Mapear esses trabalhos é construir memória. É afirmar pertencimento a partir de imagens emancipatórias e reconhecer caminhos já abertos para novas gerações de artistas que querem contar histórias a partir da Amazônia e com a Amazônia.”

Danilo também destaca a importância de que a pesquisa seja conduzida por alguém atravessado por essas experiências: “Trazer essas obras audiovisuais para o Reino Unido pode
oferecer às artistas importantes possibilidades de criação de conexões internacionais com instituições e curadorias diversas ao redor do mundo”, avalia.

COP30, Belém e o Brasil em destaque

Ao mesmo tempo em que dialoga com debates sobre mudanças climáticas, a mostra também marca simbolicamente o contexto em que Belém sediará a COP 30. “Quando o mundo se volta para uma cidade amazônida para discutir políticas climáticas, é fundamental mostrar que a Amazônia é feita de vidas reais, complexas e múltiplas — e que as poéticas queer e trans dessa região têm muito a dizer sobre futuros possíveis”, afirma Danilo.

Além das exibições na Inglaterra, o projeto realizará mostras presenciais no Brasil em 2026, em Belém e Manaus, fortalecendo a circulação local e a criação de vínculos entre artistas, públicos e comunidades. A mostra deste ano integra o programa da exposição “Ouvindo as vozes dos rios”, com curadoria de Giuliana Borea, Jamille Pinheiro Dias e Harriet Sutcliffe.

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