‘Apocalipse Açaí’: conheça o conto-manifesto de Pedro Baía que ajuda a refletir sobre a COP30 e o ‘pós-COP’ em Belém

A COP30 está sendo histórica para Belém. Há quase duas semanas, a capital paraense recebe não apenas chefes de Estado, negociadores e pesquisadores do mundo todo, mas também jornalistas, atividades, membros e representantes da sociedade civil e até mesmo artistas e celebridades.

Apesar de todo encanto e destaque, há também um alerta literário. O escritor paraense Pedro Baía lançou “Apocalipse Açaí”, um conto-manifesto que transforma a capital amazônica em palco de mistério, crítica socioambiental e memória ancestral.

A narrativa começa quando moradores encontram uma estátua de madeira em tamanho real em um canal da cidade. Historiadores identificam a peça como uma rara representação da “Nossa Senhora do Grande Rio”, produzida por povos indígenas no século XVIII. O que ninguém esperava era o que havia dentro: o corpo mumificado de uma mulher indígena, condenada em 1765 pelo Tribunal do Santo Ofício, nos tempos do Grão-Pará.

A investigadora Eneida, personagem central do conto, assume o caso e logo descobre que o episódio não é isolado. Outras estátuas começam a surgir em diferentes pontos de Belém, abrindo fissuras simbólicas entre passado e presente, revelando os fantasmas da colonização e escancarando feridas profundas — entre elas, a contaminação dos rios paraenses por metais pesados, um tema que atravessa a história e permanece atual.

Da ficção ao manifesto ambiental

Pedro Baía explica que o conto é uma continuidade das inquietações presentes em seu premiado livro Corpos Benzidos em Metal Pesado, vencedor do Prêmio Sesc de Literatura 2022. Assim como ali, o autor transforma questões ambientais do Pará em ficção — uma ficção que tensiona, provoca e tira do lugar-comum.

“‘Apocalipse Açaí’ nasce dessa campanha de ‘salvar o mundo’, ‘salvar a Amazônia’, sem ouvir as comunidades e sem colocar a natureza como protagonista”, afirma Baía. Segundo ele, a obra também critica alianças paradoxais entre artistas, pensadores, cientistas e políticos amazônidas com grupos responsáveis por crimes ambientais. “Agora não temos caravelas, mas mineradoras e seus greenwashings”, diz.

Pedro Augusto Baía também publicou “Corpos Benzidos em Metal Pesado”, vencedor do Prêmio SESC de Literatura 2022. Imagem: Arquivo pessoal.

A metáfora do apocalipse, explica o autor, atravessa o conto como símbolo de repetição histórica. A violência colonial se converte em novas formas de destruição, e os corpos colocados dentro das estátuas revelam essa continuidade brutal. Ao mesmo tempo, o açaí aparece como elemento de resistência e saber ancestral.

“A importância é a mesma de todo texto literário: aproximar o leitor dos dramas humanos e do seu tempo. A literatura contemporânea tem discutido muito o antropoceno, e eu, como escritor amazônida, posso falar disso a partir do meu quintal”, diz o autor, questionando a centralidade histórica de escritores de fora da Amazônia para narrar temas que dizem respeito à região.

Sobre o autor

Pedro Augusto Baía é doutor em Psicologia forense, escritor, natural de Abaetetuba e residente em Belém. Além do premiado Corpos Benzidos em Metal Pesado, tem contos publicados em diversas antologias nacionais.

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