Há artistas que buscam um lugar dentro dos gêneros musicais já existentes. E há artistas que vão além, não se encaixam em “prateleiras” musicais e (re)inventam o próprio território musical. É o caso do amazonense Eric Max Sales Guimarães, ou simplesmente Eric Max, 28 anos, cantor, compositor, ator e produtor.
Nascido em Novo Airão, às margens do Rio Negro, Eric criou o Ixé Pop Amazônico, que pode ser compreendido como um ritmo, estética e/ou, sobretudo, uma forma de existir artisticamente a partir da Amazônia.
Sua obra — que inclui canções como “Rio Negro” e “Mucura” — aprofunda esse universo pop-ancestral, aproximando tradição, inovação, reflexão e resistência. Com as canções e videoclipes, Eric reafirma a Amazônia como centro ativo de criação. Não como margem. Não como inspiração decorativa. Mas como origem. Como território-sonoro cada vez mais atual e que atrai grande público. Para se ter uma ideia, os videoclipes das duas canções, em cerca de 2 meses, já possuem quase 200 mil visualizações.
Mas, afinal, o que é Ixé Pop?
Em entrevista exclusiva ao Portal Chama Cultural, Eric explica que “o Ixé Pop Amazônico nasce menos como um rótulo e mais como um território”, diz. Ixé significa “eu” em Nheengatu — e o nome já indica o ponto de partida: uma música profundamente autoral, enraizada e contemporânea. “É como se eu dissesse: esse é o meu jeito amazônida de fazer pop”.
Esse “jeito” mistura batidas pop e indie com elementos da paisagem sonora da região: o banzeiro do Rio Negro, a memória das comunidades ribeirinhas, a ancestralidade Baré e outros povos indígenas que ele herda da família. A voz se move entre o íntimo e o ritualístico, entre o sussurro de reza e a força quase encantada. Há flautas, percussões, beats eletrônicos que dialogam com o mundo e letras que circulam entre o português e o Nheengatu. “Eu encaro o Ixé Pop Indie Amazônico como um corpo vivo: dançante e contemplativo, urbano e ribeirinho, ritualístico e pop”, explica. “É a floresta amazônica se ouvindo no próprio fone de ouvido”.
A percepção de que precisava (re)nomear sua produção surgiu quando lançou “Rio Negro”. Naquele momento, os formulários e plataformas insistiam na mesma pergunta: qual é o gênero? Nenhuma resposta satisfazia. “Eu sempre ficava num entre-lugar: não era só MPB, nem só pop, nem só música regional, nem só alternativa”, lembra. Não se tratava de uma indecisão estética, mas do reconhecimento de que sua obra já vinha atravessada por cinema, espiritualidade, memória indígena, ativismo ambiental e experimentação sonora. “Entendi que eu não precisava entrar em uma prateleira pronta. Eu podia assumir esse entre-lugar como o centro do meu trabalho”.
É por isso que o Ixé Pop Amazônico não nasce como tendência, mas como postura. Eric o entende como um gesto de afirmação cultural — e também política — em um momento em que a Amazônia segue sendo, como ele diz, “usada como pano de fundo para histórias de outras pessoas”. Ele critica a recorrência de artistas de fora que tratam a floresta como cenário exótico, sem escutar as vozes que vivem o calor, as cheias, as vazantes, as violências e as curas da região. “A inovação, pra mim, é quando a narrativa muda de ponto de partida: agora quem fala é o corpo que mora aqui”.
Amazônia ancestral, presente e futura
Nesse sentido, criar novos gêneros e linguagens é também uma forma de reivindicar futuro. “Nós não somos só folclore congelado, somos presente e futuro”, afirma, situando sua obra num horizonte que ultrapassa a música e alcança a imaginação. Ele menciona a crise climática, os ataques aos povos originários e o apagamento das populações ribeirinhas como elementos que tornam urgente a criação de novas narrativas. “O Ixé Pop é a minha tentativa de criar uma trilha sonora pra esse futuro — um futuro onde a floresta é sujeito e não recurso”.
Esse futuro não é individual. Eric faz questão de lembrar que o movimento não lhe pertence sozinho. “Queria destacar que o Ixé Pop Indie Amazônia não é só sobre mim”, diz. “É um movimento que eu sonho ver muitos corpos ocupando: artistas amazônidas, indígenas, ribeirinhos, negros, periféricos”. Com a Borboleta Azul Filmes, produtora que dirige, ele busca construir o que chama de “floresta digital”: um espaço em que a juventude da Amazônia possa se reconhecer, sentir-se bonita, potente e necessária.


Deixe um comentário