Uma mulher indígena olha para um espelho. Quer dizer, o que sobrou dele. Quebrado, partido. Nesse (resto de) espelho, ao invés do reflexo da cidade que a circunda com seus prédios e carros em fluxo caótico, emerge outra paisagem: um rio iluminado, animais e árvores. Naquele pequeno pedaço, o que vemos é um trecho mínimo – ou ainda a lembrança – de algum recanto natural (idílico, por que não?!) da Amazônia. Há mais: o espelho sangra a mão que o segura, como se marcasse profundamente aquela mulher e tantos outros amazônidas. Este é o quadro “Arquitetura do Apagamento”, a primeira obra da série “Antes que desapareça”, da artista paraense Cecília Silva.
Formada em Pedagogia pela UFPA, Cecília começou a produzir suas obras de forma mais detida em 2020, durante a pandemia de Covid-19, quando aceitou as primeiras encomendas. Ao longo dos quatro anos de graduação, somados ao impacto do período pandêmico, ela encontrou na pintura uma importante forma de expressão.
“Durante esse processo, compreendi que o currículo escolar é um campo de forças, pois, na maioria dos casos privilegia perspectivas eurocêntricas e apaga outras histórias, como as dos povos indígenas (existem mais de 300 povos e etnias indígenas em nosso país e muitos indivíduos não sabem citar sequer 3) da população negra e das mulheres (temática a qual me dedico a pesquisar no momento através do projeto de pesquisa que sou bolsista)”, explica a artista.

A obra nasce justamente destes incômodos e discernimento contextual citados: a compreensão de que o apagamento não é acidental. É estrutural. É antigo. Tão antigo quanto a primeira vez que grupos privilegiados decidiram que certas histórias não mereciam ser contadas.
Na obra de Cecília – e na vida contemporânea –, a cidade nunca para. Carros cortam o espaço em movimento contínuo, e os prédios materializam uma lógica que converte tempo em produtividade e natureza em recurso. É o Ocidente como arquitetura: funcional, eficiente e blasé – o que requer, segundo Georg Simmel, um distanciamento que, convenhamos, é necessário.
No centro desse cenário, a figura indígena feminina não foge, encara de uma só vez o caos citadino, a si mesma e suas memórias. Ela (se) observa. E nessa observação silenciosa há uma potência que a cidade não consegue traduzir: a potência de quem já conheceu outro tempo e não o esqueceu. Não se trata de saudosismo “chato” ou idealizado, mas de reflexão e, neste caso, de reflexo – de si e do espelho presente na imagem.
O espelho, é preciso notar, é central na obra não apenas materialmente, mas para “compreendê-la” (sempre com o risco que buscar “compreender” uma obra de arte causa…). Sobre isto, Cecília conta que a ideia surgiu de uma conversa com um amigo sobre transformar músicas em pinturas. Dias depois, ouvindo “Índios”, da Legião Urbana, um verso se destacou: “nos deram espelhos e vimos um mundo doente”.
“O espelho, na obra, não reflete apenas o presente, mas revela o passado — aquilo que, na lógica dominante, costuma ser colocado “para trás”, mas que permanece vivo e essencial. Por isso, o reflexo aparece associado à figura feminina indígena, trazendo à tona a memória, a ancestralidade e uma relação mais integrada entre ser humano e natureza, anterior às hierarquizações impostas pela visão eurocêntrica”, destaca a jovem artista.
Observar o e através do espelho, na obra, é destacar o que ele mostra — não a si mesmo distorcido pelo outro, mas a si mesmo por completo: matéria e memória; cidade e floresta; ruas e rios; antes e agora, mesmo que esteja quebrado. A luz do sol, que na cidade aparece partida entre janelas e fachadas de concreto, encontra sua “plenitude” apenas dentro do reflexo — como se a completude e a calmaria só existissem naquela imagem idílica, que o progresso insiste em chamar de atraso e muitas vezes transforma em produto do/ para o capital com a migalha turística chamada “experiência”.

Essa tensão entre várias camadas (passado, presente, angústia pelo futuro, memória, realidade, experiência, “idealização”, entre outras) é ampla. Incomoda. Chega a doer. A mão sangra. Não por acaso, na obra vemos a mulher indígena “de lado”; sua boca não aparece. Tal ausência talvez sugira séculos de silenciamento. Isto é resultado da construção artística, pesquisa acadêmica e atenção à vida vivida. Cecília pesquisa o silenciamento feminino na história da educação e confessa que essa dimensão atravessa cada escolha que faz: “Reconhecer nossas origens e repensar as referências que organizam nosso modo de ver o mundo para que isso não desapareça de nossas memórias”, sintetiza.
A artista
Autodidata, Cecília Silva, 22 anos, tem referências artísticas diversas. De Tarsila do Amaral a Rosana Paulino, de Frida Kahlo a Daiara Tukano e Joseca Yanomami. Da pintura clássica à arte indígena contemporânea. Regionalmente, aponta nomes como Kambô, Éder Oliveira e Itatiane Moraes — artistas que, como ela, entendem que fazer arte na Amazônia é também um ato político de autoafirmação territorial. Não por acaso, são artistas que colocam a região no centro de suas poéticas, recusando o papel de periferia que o mercado cultural brasileiro tantas vezes lhes reserva.
Sua trajetória também dialoga, obviamente, com a Pedagogia — área que a ensinou a questionar o que se ensina, o que se omite e por quê. Esse atravessamento entre educação e arte é constitutivo do seu trabalho: ela não pinta apenas o ideal do “belo em si”, nem apenas para “emocionar”. Pinta para questionar. Para educar. Para mostrar que é cada vez mais possível colaborar no processo em que o território e seu povo têm protagonismo.
Também por isso, ela cita ainda sua mãe, “maior referência de força e resistência”; os irmãos, primeiras inspirações para o desenho; e os professores da UFPA (Edna Barreto, Rosana Gemaque, Lívia Silva e Bruno Malheiro) que ajudaram a moldar a artista que ela está se tornando. Reconhecer e referenciar é também um ato político. É recusar o mito do gênio solitário e reconhecer que toda criação nasce de uma teia de afetos, de mestres, de memórias e vivências.
O porvir
“Antes que desapareça” não tem este título de forma aleatória. Remete a urgência. É urgência. As demais obras da série já estão em desenvolvimento, e Cecília também planeja uma exposição — seu maior objetivo no momento. Até lá, as redes sociais seguem como vitrine e ‘trincheira” para alcançar e se aproximar de um público amplo e diverso, inclusive quem ainda não entrou numa galeria e talvez nunca entre, mas que pode e merece tais reflexões.
“O futuro é ancestral”, escreveu Ailton Krenak. Atenta a isso, Cecília Silva segue empunhando pincéis, dentre espelhos partidos, reais ou em telas, provocando reflexos e reflexões que mostram não só o vigor artístico, mas também a coragem de mostrar que a Amazônia, mesmo que carregue tantas “feridas” que sangram, pode seguir no centro. Isso pode ajudar a todos nós, amazônidas, a nos observarmos, nos compreendermos e (nos) olharmos em todo e qualquer espelho, em meio às lembranças do passado, o cotidiano presente e as esperanças e angústias do porvir, antes que tudo desapareça.
Por Enderson Oliveira, jornalista, mestre e doutor em Antropologia, editor e responsável pela Chamacultural.com.




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