Placa de açaí é tema de pesquisa e artigo científico sobre cultura e informação na Amazônia paraense

Caminhando pelas ruas de Belém, região metropolitana e outras cidades do Pará, basta avistar uma placa vermelha para saber exatamente o que aquilo significa: ali tem açaí, é um ponto de venda. Talvez você nunca tenha precisado que alguém explicasse isso, se for paraense. Essa comunicação instantânea, silenciosa e absolutamente eficiente, que qualquer paraense decodifica sem esforço, se tornou análise e pesquisa.

O artigo “Semiose informacional na Amazônia paraense: a placa do açaí como signo mediador da informação”, de Alessandra Nunes de Oliveira e Jetur Lima de Castro, da Universidade Estadual Paulista (UNESP), foi publicado no volume 31 da revista científica Encontros Bibli, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O estudo analisa cinco registros fotográficos de placas de açaí espalhadas por Belém à luz da semiótica de Charles Sanders Peirce, tratando a placa como um verdadeiro documento cultural.

“Como algo tão comum pode ser tão invisível para a ciência?”, provoca Alessandra Nunes de Oliveira, em entrevista exclusiva. Para a pesquisadora, a inquietação nasceu da própria experiência de viver e caminhar pela cidade: “A cor vermelha, a posição na fachada, a forma artesanal do objeto já comunicam uma informação inteira. Há ali um saber compartilhado”, explica a pesquisadora, doutora em Ciência da Informação (UNESP), que está em estágio pós-doutoral no PPGCOM/UFPA. Mais do que estudar um objeto isolado, o interesse dos pesquisadores era compreender como a Amazônia produz seus próprios signos, suas próprias linguagens — uma pesquisa, em certo sentido, sobre Belém olhando para si mesma.

O percurso, no entanto, não foi simples — e o maior obstáculo não foi metodológico, mas epistemológico. “A dificuldade estava em convencer que um objeto aparentemente simples poderia produzir reflexão científica relevante”, conta Alessandra. Ao longo de aproximadamente um ano, entre coleta de imagens, análise e redação, os pesquisadores romperam com a expectativa de que a ciência só investiga o extraordinário. “A placa do açaí está tão incorporada ao cotidiano paraense que quase não a percebemos mais. Ela se torna parte da paisagem”, enfatiza.

Foi nesse ponto que a semiótica de Peirce se mostrou uma chave interpretativa potente. A pesquisa se debruça sobre três tricotomias peirceanas — qualissigno-sinsigno-legissigno; ícone-índice-símbolo; rema-dicente-argumento — para mostrar que a placa não é apenas um objeto material, mas uma condensação de experiências, hábitos e convenções culturais. O vermelho predominante é chamativo e funciona como elemento sensorial associado ao fruto, enquanto a recorrência visual da placa estabiliza um código coletivo reconhecido por toda a população amazônica — um signo que ultrapassa a função comercial e se firma como elo entre produtores, vendedores e consumidores.

A abordagem qualitativa, documental e narrativo-interpretativa também reforça que objetos cotidianos podem funcionar como documentos culturais, capazes de registrar práticas sociais e afetos tanto quanto um arquivo formal. Isto ganha mais importância ainda pelo fato de os pesquisadores coordenarem o GEICA (Grupo de Estudos em Informação, Cultura e Amazônia), mostrando que a publicação carrega um significado que vai além da conquista individual. “Significa afirmar que a Amazônia não é apenas um lugar sobre o qual se produz conhecimento. Ela é também um lugar a partir do qual se produz conhecimento”, afirma Alessandra.

Historicamente observada por olhares externos voltados à floresta e aos recursos naturais, a região passa a ser reconhecida também como produtora de teoria a partir de sua própria vida cotidiana. “Não se trata apenas de estudar a Amazônia. Trata-se de pensar o mundo a partir da Amazônia”, resume, destacando que publicar em periódico nacional amplia a presença de discussões amazônicas nos debates mais amplos da área no Brasil.

“Quando um paraense vê uma placa vermelha numa esquina, não está apenas diante de uma informação comercial. Está diante de um signo cultural que mobiliza memórias, hábitos alimentares, experiências familiares”, explica a pesquisadora. Talvez a principal contribuição do artigo seja justamente essa: mostrar que a Amazônia também é um universo de signos, um território onde a informação circula por linguagens próprias, construídas historicamente pelas comunidades que ali habitam.

Para concluir, cara leitora e caro leitor, é possível afirmar que a pesquisa fala menos sobre a placa em si e mais sobre a capacidade da cultura de produzir sentidos compartilhados. “A informação não está somente nos livros, nos arquivos ou nas bases de dados. Ela está também nas ruas, nas feiras, nas fachadas das casas”, afirma Alessandra Oliveira. É um convite a olhar novamente para o que vemos todos os dias, porque os fenômenos mais interessantes raramente estão escondidos: estão diante dos nossos olhos, tão próximos que aprendemos a não percebê-los mais. Entre o estranhamento e o familiar, reforça-se a constatação de que a complexidade cultural da Amazônia vai além de imagens idílicas e midiáticas, manifestando-se também em simples imagens que vemos (e vivemos, por que não?) no cotidiano.

Por Enderson Oliveira, jornalista, mestre e doutor em Antropologia e responsável pelo portal Chama Cultural

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